Ciências & Histórias

segunda-feira, outubro 13, 2008

Mary não via, mas achava que sabia




Imaginemos Mary, uma renomada neurocientista do século XXIII, que conhece todos os fatos cerebrais relevantes no processo de visão das cores. Entretanto, Mary cresceu em um ambiente onde as únicas cores disponíveis eram o preto e o branco. Apesar de seu vasto conhecimento dos processos neurofisiológicos de percepção das cores, ela mesma nunca foi capaz de experimentá-las. Mary não sabe o que é vivenciar a cor vermelha de uma maçã. Esta história tem como objetivo nos trazer a seguinte moral: existem fatos acerca da experiência consciente que não podem ser deduzidos dos fatos neuronais relativos ao funcionamento do cérebro.

Para Chalmers, podemos separar os problemas envolvendo a consciência em duas categorias: os “problemas fáceis” e o “problema difícil”. Os “problemas fáceis” envolvem aqueles presentes em grande parte da psicologia e biologia que dizem respeito aos mecanismos e processos objetivos do sistema cognitivo. É razoável, para ele, esperar que tais problemas sejam cedo ou tarde respondidos pelas pesquisas feitas pela psicologia cognitiva e pela neurociência. Já o “problema difícil” consiste em descobrir como os processos físicos do cérebro dão origem à experiência subjetiva, ou seja, o modo como as coisas são singularmente percebidas pelo indivíduo. Seriam estes fenômenos que apresentam o grande mistério da mente (Chalmers, 1996). Grande parte da pesquisa atual envolvendo a consciência, segundo Chalmers, trata somente dos problemas fáceis, mas os relevantes progressos alcançados por essas investigações não se refletem na elucidação do problema difícil.

O que vemos é que o conhecimento acumulado pela neurociência não ocorreu completamente de forma súbita. Desde os primórdios e em diferentes civilizações, vemos a construção de diversas teorias da mente, contemporâneas entre si e que refletem justamente esta preocupação humana em responder à questão fundamental acerca do fenômeno mental e de sua relação com o corpo em que se encontra. Assim, o estudo das relações entre cérebro e mente, não é recente. Da pré-história à atualidade, os mais variados questionamentos a respeito da mente foram feitos. Suspeita-se que desde a pré-história o ser humano tem se preocupado com as possíveis relações entre o cérebro e suas funções cognitivas (Finger, 1994; Gross, 1998).


(Imagens retiradas do site Flickr)

2 Comentários:

  • Mutito esclarecedor este artigo.
    Valeu.

    Por Blogger João Maria Andarilho Utópico., Às outubro 13, 2008 7:36 PM  

  • Fabiano, dei uma lida na questão das cores, e me lembrei de uma indagação filosófica que sempre me intrigou, e que aparentemente não tem solução: se pedirmos para uma pessoa descrever algum objeto, como uma tesoura ou um martelo, ela será capaz de fazer isto sem problemas; mas, e se pedirmos para esta mesma pessoa descrever, por exemplo, a cor amarela, ela conseguiria? E vc, conseguiria? Grande abraço...

    Por Blogger Vítor Castro Gomes, Às outubro 30, 2008 12:07 PM  

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